Provocando - Há quem quer e há quem QUER - por Marcelo Veras

Artigos

31 Maio, 2021

"Quem QUER, age. Quem quer, justifica e reclama"  

 

O mundo é justo ou injusto? Pergunta que rende uma bela discussão, não acha? Pois é, já tive esse tipo de conversa várias vezes com pessoas que acham que sim e com outras que acham que não. O tema é amplo, polêmico e toca diversas dimensões da nossa sociedade. Pessoas com sucesso financeiro e profissional são obras do acaso, sortudos ou batalhadores? Quem já nasceu em berço esplêndido merece a vida boa que sempre teve ou não? E quem nasceu e foi criado em situação de pobreza e, mesmo assim, conseguiu crescer profissionalmente e financeiramente, merece qual adjetivo? Aonde formos, encontraremos todos os tipos de casos e histórias. E cada uma delas coloca mais um ingrediente na pergunta - "o mundo é justo ou injusto"?

Um dos meus maiores aprendizados na vida, e que sempre trago aqui nas minhas reflexões, diz respeito à relatividade de tudo (ou quase tudo). Entender a teoria da relatividade me deu uma nova lente para analisar fatos, decisões e fenômenos humanos. Passei a ter, inclusive, uma nova forma de julgar as pessoas, a partir do momento que consegui entender que sempre existe uma régua. Só relembrando, caso você nunca tenha lido algo que escrevi a respeito, a teoria da relatividade diz que tudo é relativo. Não existe rápido ou lento, alto ou baixo, gordo o magro, grande ou pequeno, feio ou bonito. Tudo depende do comparativo. Há sempre com quem ou com o quê estamos comparando. É, portanto, complicado quando tantas pessoas fazem julgamentos absolutistas e desprezam a relatividade.

O momento histórico pelo qual passamos é muito complexo e desafiador. Independente da pandemia da Covid-19, os desafios já eram e seguem colossais. Desigualdade social, insustentabilidade ambiental, polarização com narrativas extremistas, entre outras mazelas. Se avaliarmos o momento atual sem réguas e sem relatividade, estamos todos lascados. Dá vontade de pegar o primeiro voo para marte e sumir daqui. Mas, se colocarmos a lente da relatividade, talvez as conclusões sejam outras. Se lembrarmos que a média de idade em 1.900 era de 33 anos e a renda média era inferior a R$ 200,00 por mês, que não tínhamos a maioria dos medicamentos e vacinas que temos hoje, que não tínhamos métodos de diagnósticos e cirurgias que temos hoje, que tivemos duas guerras mundiais em um século e hoje isso parece quase impossível, talvez o cenário atual se torne menos desolador.

Veja, o papel dessa coluna é provocar, não de fazer juízo de valor. Avaliações absolutas têm sim o seu valor, até porque a dor de cada um é sempre absoluta e não cabe a ninguém relativizar. O ponto aqui é: será mesmo que o mundo é horrível e injusto com todos?

Deixe-me relembrar alguns fatos dessa pandemia e depois lhe contar uma história que vivenciei recentemente. Procure nos registros da mídia e você vai encontrar algumas histórias de arrepiar durante a pandemia. Há a história do senhor de 92 anos de Ribeirão Preto, que cursava faculdade de arquitetura e pedia apoio aos netos para conseguir operar o computador e assistir às aulas online. Um menino de 13 anos sentado na calçada, em frente a um açougue, no sol, usando o wi-fi cedido pelo dono, para poder acompanhar as suas aulas online. Em outra mais recente, um menino no interior do Amazonas que, para poder pegar o sinal do celular e assistir às aulas, subia numa árvore e ficava lá por horas para poder estudar. Todas elas, histórias que nos colocam diante do dilema que assina este texto: há quem quer e há quem QUER.

Vamos à história pessoal que quero compartilhar. No início de março de 2021, decidi ajudar a quem estivesse sem emprego e em busca de um. Montei um programa de 5 aulas. Seriam 5 manhãs de sábado, das 09h às 12h30.  A jornada tinha a seguinte agenda e o objetivo maior era ajudá-los nessa fase tão complicada de desemprego e tentativa de retomada:

Aula 1: 03 de abril - Introdução ao curso, perspectiva histórica, atual e futura da gestão de carreira.

Variáveis mais importantes para a empregabilidade.

Aula 2: 10 de abril - As competências mais importantes na busca de um emprego. Como medir em você e desenvolver.

Aula 3: 17 de abril - Currículo.

Aula 4: 24 de abril - Entrevistas e Redes Sociais.

Aula 5: 01 de maio - Mentoria em grupo: debate e discussão sobre todos os temas vistos no curso.

O curso, que seria ao vivo e online, só tinha um pré-requisito: estar sem emprego. Eu precisava de um site para colocar um vídeo meu, a agenda de aulas e um formulário para inscrição. Quando fui orçar o mesmo com o João Gabriel, da JgWebcom, e ele descobriu que se tratava de um curso gratuito, logo se prontificou a ajudar também e não cobrou nada. Fiquei muito feliz e elaboramos o projeto. Em uma semana, o site estava no ar, comecei a divulgar e pedir ajuda aos amigos e colegas de trabalho. Uma bela corrente se formou e, em menos de uma semana, já tinha quase 30 inscritos de todo o país. Em duas semanas o limite de vagas (50) estava estourado. Um sucesso! Combinei com o João de manter o site no ar, mas com uma mensagem de pré-inscrição para a turma 2, pois decidi que faria uma turma 2 se mais pessoas aparecessem.

Há três dias do início, tive uma conversa com o João e com a minha esposa. Havia 3 pessoas inscritas para a turma 2 e 50 para a turma 1, já "lotada". Após concluir que, muito provavelmente alguns iriam faltar devido a algum imprevisto, decidi incluir estes 3 a mais na 1ª turma.

Entrei em contato com todos os 53 (via email e whatsapp) desejando boas-vindas e enviando o link do zoom, onde teríamos os nossos encontros ao vivo e online. Na sexta anterior, quase não durmo de ansiedade e empolgação. Queria conhecer o que chamei dos meus 53 pupilos e estava pronto para dar o meu melhor e ajudá-los na recolocação no mercado de trabalho. O perfil do grupo era: 35 mulheres e 18 homens, com média de idade de 42,1 anos, de 20 cidades em 5 estados e há 11,2 meses sem emprego.

Para minha absoluta surpresa, às 09h do sábado 03 de abril de 2021, vieram 14. Isso mesmo, 14 dos 53 inscritos! Após disfarçar, logo no início da 1ª aula, a minha profunda decepção, virei a chave e foquei naquilo que estava ali para fazer - ajudar a quem quis ser ajudado. Um dos 14 presentes avisou que tinha que sair na metade da 1ª aula em função de um compromisso familiar. Saiu e não voltou para a aula 2. Foram cinco manhãs incríveis, com debates e discussões muito ricas. Todos sempre muito abertos, gratos e dedicados com tudo o que eu pedia de uma semana para a outra. Enfim, uma linda jornada que se encerrou, coincidentemente, no dia 01 de maio - Dia do trabalho.

Essa história, juntamente com as que mencionei aqui anteriormente, me deu mais uma aula importante sobre o verbo "querer". Ele tem duas formas de se apresentar. Em letras minúsculas, quando o abismo entre a intenção e a ação é enorme; e, em letras maiúsculas, quando abandonamos a posição de vítima, arregaçamos as mangas e, mesmo com todas as dificuldades, corremos atrás do que queremos. Por isso, daqui para frente sempre ficarei mais atento para reconhecer quem quer e quem QUER. 

Ah, e você? O que acha? O mundo é justo ou injusto?