Ponto de Contato - Teje Cancelado - por Eliane El Badouy

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31 Julho, 2020

green and white braille typewriter

Foto: Unsplash


Sim, eu sei que está escrito errado e soa péssimo, mas a ideia aqui foi fazer uma conexão com "teje preso", aquela velha expressão popular e bastante coloquial usada em tempos antigos para dar voz de prisão a uma pessoa. Neste caso dar voz de cancelamento.

Cancelar está recebendo um novo uso. O cancelamento em questão tem a ver com a remoção do apoio a figuras públicas em resposta ao seu comportamento ou opiniões questionáveis. 

Cancelamentos ocorrem o tempo todo, é verdade, e por diferentes razões. Aquela reunião que você não esperava participar foi cancelada porque as pessoas não conseguiam coordenar suas agendas. Você cancela um pedido de compra depois de mudar de ideia e não desejar mais o item. E até mesmo um programa de TV é cancelado quando não alcança bons índices de audiência e nem gera resultados financeiros.  Enfim, quando algo é cancelado, ele desaparece.

Mas no uso mais recente da palavra, você pode cancelar empresas e pessoas - em particular celebridades, políticos, marcas ou qualquer pessoa pública.

Cancelar alguém significa parar de dar apoio a essa pessoa. O ato de cancelar pode implicar o boicote aos filmes de um determinado ator ou a não leitura ou promoção das obras de uma famosa escritora. Ou ainda, a nulificação das músicas de um determinado artista. O motivo do cancelamento pode variar, mas geralmente se deve ao fato de a pessoa em questão ter expressado uma opinião censurável ou ter se comportado de uma maneira inaceitável, condenável, ofensiva e preconceituosa por determinados grupos sociais, de modo que continuar a prestigiar o trabalho dessa pessoa pode significar o compartilhamento das mesmas crenças e opiniões.

O termo foi creditado aos usuários negros do Twitter, onde foi usado como hashtag. O movimento hoje conhecido como "cultura do cancelamento" começou, há alguns anos, como uma forma de chamar a atenção para causas como justiça social e preservação ambiental. Seria uma maneira de amplificar a voz de grupos oprimidos e forçar ações políticas de marcas ou figuras públicas.

O cancelamento é semelhante a um contrato cancelado, um rompimento do relacionamento que antes vinculava um artista a seus fãs. 

Um dos casos mais marcantes sobre esta transformação cultural foi a sublimação da influenciadora Gabriela Pugliesi, que após contrair a COVID-19, depois de estar curada, postou fotos de uma festa com amigos em meio à pandemia. Porém a postagem, custou bem caro. Criticada em massa até por seguidores famosos, Pugliesi perdeu diversos contratos publicitários, gerando um prejuízo estimado em 3 milhões de reais. Assídua no Instagram, ela desativou sua conta no fim de abril e, até agora, não voltou à rede social.

Já a atriz Thaila Ayala, sem o menor senso crítico, criou uma marca de roupas inspirada pelo coronavírus, intitulada "Vírus 2020". Nas redes sociais, foi extremamente criticada e seu nome chegou a ficar entre os assuntos mais comentados do Twitter. Diante da repercussão negativa, a atriz se desculpou e trocou o nome da grife.

MC Kevin foi "cancelado" não só pelos seguidores, como pelos vizinhos. O funkeiro foi diagnosticado com COVID-19 e furou o isolamento social, colocando os moradores do condomínio onde ele mora em risco. O caso foi parar na delegacia e os vizinhos fizeram um boletim de ocorrência contra Kevin.

Gusttavo Lima foi outro alvo da "cultura do cancelamento" por dois motivos. Primeiro os internautas criticaram o sertanejo por ter publicado uma foto segurando uma galinha morta na mão com a legenda "jantar garantido" na imagem; e, mais uma vez, por ter furado a quarentena para pescar com o também cantor Leonardo.

Evan Peters, conhecido por papéis em American Horror Story e X-Men, também está entre as celebridades "canceladas". O ator compartilhou um vídeo de um policial agredindo um manifestante nos EUA com uma legenda que demonstrava apoio aos oficiais. Depois da repercussão negativa, Evan apagou o post, se desculpou e disse que foi um mal-entendido.

A estrela de Harry Potter, Emma Watson, foi "cancelada" por conta do "Blackout Tuesday" (terça-feira do apagão). A atriz aderiu ao movimento e postou uma imagem preta no Instagram dela, porém, usou uma borda branca na foto para manter a estética e a organização do perfil. Os internautas não perdoaram a edição feita por Emma que recebeu muitas críticas.

Mas esse não é um fenômeno recente. Trata-se de uma manifestação cultural de patrulhamento e necessidade de se exibir a partir dos "erros" de artistas. De acordo com Ricardo Alexandre, autor da biografia "Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal", afirmou em podcast do G1 música que, o cantor deve ter sido o primeiro caso de artista brasileiro cancelado. Embora o conceito de cancelamento não existisse em 1971, auge da ditadura militar brasileira, havia o que se chamava de patrulha ideológica. Para Ricardo, Simonal ficou para sempre com a pecha de ser visto como um artista alinhado à ditadura, de ser "um dedo-duro do regime militar" e isso prejudicou significativamente sua carreira.

Outro caso clássico de "cancelamento em tempos não digitais" foi o dos Beatles por conta de uma declaração de John Lennon, em 1966 numa entrevista na Inglaterra falando sobre a decadência da religião junto aos jovens.  Lennon havia dito que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo e a frase foi interpretada como se ele tivesse afirmado ser melhor do que Jesus. Discos da banda foram queimados em fogueiras enormes em histeria coletiva. Como nessa época não haviam mídias sociais, o caso ficou restrito a pequenos cinturões religiosos nos Estados Unidos, com pouca força de propagação para o resto do mundo.

Fato é que a Internet mudou a forma como cancelamos e estendeu o alcance do cancelamento.

As mídias sociais foram criadas para serem veículos de altíssima exposição, beirando o exibicionismo. A realidade é que se um caso como o de Lennon acontecesse hoje, seria um prato cheio para uma determinada persona mostrar pro mundo o "cristão devoto" que ele é.

Me atrevo aqui a fazer algumas reflexões sobre o que entendo estar por trás cultura do cancelamento.

A base da cultura digital é binária. E as redes sociais também são muito binárias: basta ver os próprios símbolos que usamos para curtir, descurtir, aprovar e não aprovar. Ou é isto ou aquilo. Entretanto estamos num contexto em que o maniqueísmo deve ser evitado. Nem tudo deve ser ou preto ou branco. Existem muito mais tons de cinza. Assim como existem pontos de vista diversos e múltiplas respostas possíveis para uma mesma pergunta. Em síntese a vida pode ser assim e assado ao mesmo tempo.

A cultura do cancelamento não tem, necessariamente, a ver com o artista. Tem a ver com a necessidade pessoal de exibição a partir do erro do artista ou celebridade.

Há uma forte presença de viés de confirmação: um tipo de pensamento seletivo onde tendemos a dar mais atenção àquilo que confirma as nossas respectivas crenças e de ignorar e desvalorizar qualquer ponto que as contradiga. Ou seja, uma ânsia em cancelar um certo alguém por ter falado algo diferente daquilo que era esperado. 

Há, também, um aspecto performativo no cancelamento, que amplifica paradoxalmente o que ele procura reprimir, mesmo que seja por um momento. Para cancelar alguém publicamente, muitas vezes é necessário transmitir esse ato, o que torna o alvo do cancelamento um assunto de atenção. O objetivo por trás do cancelamento é frequentemente negar essa atenção, para que a pessoa perca seu capital social e cultural. Lisa Nakamura, professora do Departamento de Culturas Americanas da Universidade de Michigan, diz: "As pessoas falam sobre a economia da atenção - quando você priva alguém de sua atenção, está privando-o de seus meios de subsistência". Portanto, um clima de cancelamento pode mudar a maneira como as pessoas falam, argumentam e se comportam, mesmo que não consiga destruir as carreiras de algumas das pessoas famosas que visam. 

O ponto de cancelamento é, em última análise, estabelecer normas para a maioria. 

A questão aqui é para quê, qual sua abrangência, como é feita e o que significa. 

O importante é não confundir como algo que visa coibir a liberdade de expressão, funcionando como um movimento censor.

Há uma diferença entre cancelar um tipo de comportamento que é visto coletivamente como "ruim, racista, homofóbico e de ódio" e cancelar uma pessoa em particular por intolerância a pontos de vista divergentes.

A restrição do debate, seja por um governo repressivo ou uma sociedade intolerante e o clima de intolerância que se instalou em todos os quadrantes, está dificultando a troca livre de informação e de ideias. Cancelar a própria cultura pode significar ser cancelado.


Referências: BBC Brasil, The New York Times, NY Post, Famosos e TV-R7, G1 Música, G1 Pop & Arte, Merrian-Webster, The Telegraph, The Atlantic.


Eliane El Badouy Cecchettini, Badu como é conhecida no mercado, é publicitária, professora e coordenadora da Pós-Graduação de Economia Criativa e professora na Pós-Graduação de Neuromarketing da Inova Business School. Seus mais de 30 anos de carreira foram construídos em grandes grupos de comunicação como Editora Abril, Folha de S.Paulo e Sony Enterteniment Television e agências de propaganda. Em sua trajetória profissional atendeu contas como Mc Donald’s, Tetra Pak, 3M, FIAT, CPFL, Souza Cruz, Unilever, Johnson & Johnson, Internacional Paper entre outras. É Conselheira Trends & Innovation, Consultora Sênior de Futuro, Tendências & Consumer Insights da Inova Consulting e pesquisadora do comportamento, mecanismos de atenção e do consumo de mídia contemporâneos.

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