Metodologias Ativas na Educação - O conto do Conto - por Max Franco

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26 Maio, 2021

Você assiste a alguma série de TV no momento? Qual ou quais?

Quais são as suas prediletas? As minhas, digo fácil: Roma, House, Vikings, GOT, The Boys, Os Bórgias, The Tudors, Breaking bad, Sherlock, Band of brothers, La casa de papel e Handmaid’s tale.

Você tem outras preferências? Sem problemas! Cada um tem as suas preferências.

Há uma clássica discussão sobre como as produções audiovisuais, seja tratando de cinema, seja de TV, influenciam os costumes e a cultura contemporânea. O debate, entretanto, se fortaleceu em 2020, o ano do "streaming". Um fenômeno que, também, pode ser explicado pelo advento da pandemia, a qual forçou as pessoas a ficarem mais em casa.

Você deve ter percebido que citei apenas uma série que está sendo transmitida nos dias atuais: Handmaid’s tale. Digo isso porque as demais séries não são boas? Nada disso. Há muita coisa relevante sendo produzida, mas Handmaid’s é aquele naipe de série que faz a gente torcer para os dias passarem mais rápido.

A série televisiva é produzida por Bruce Miller e baseada no romance homônimo lançado em 1985 pela premiada escritora canadense Margaret Atwood.

O enredo de Handmaid’s se passa em um país fictício chamado Gilead e serviria como prova cabal contra qualquer ideia de estados teocráticos. A questão é que, mesmo sendo uma distopia, o que mais aflige na história é a sua semelhança com atitudes e posturas bastante atuais do mundo atual. Inclusive, é corriqueiro pensar - com certa angústia - enquanto acompanhamos as inúmeras desgraças que se abatem sobre June e as demais aias que Gilead não está assim tão distante de nós.

O livro foi um dos mais proibidos em escolas dos Estados Unidos. Não estamos falando da década de 30 e, sim, do século XXI, o qual ainda permite que livros sejam banidos. Entre os anos de 1990 a 1999, por exemplo, The Handmaid’s Tale ficou em 37º na lista dos 100 livros mais proibidos. Já entre os anos 2000 e 2009, o ranking melhorou bastante, passando para a 88ª colocação.

Além de uma narrativa instigante, trilha sonora envolvente, fotografia e produção primorosas, Handmaid’s conta com um casting surpreendente. Até Joseph Fiennes (Comandante Fred Waterford), que geralmente empresta a costumeira poker face à quase todas interpretações nas quais está incluído, consegue trazer complexidade para o seu personagem. Mas complexa-complexa realmente é a sua mulher, Serena Joy Waterford, que é interpretada pela bela e eclética atriz australiana, Yvonne Strahovski. O trio central do enredo é completado por uma atriz que, certamente, ainda terá muito a mostrar em virtude do seu talento. June Osborne (Offred) é trazida a público pela excelente Elisabeth Moss, a qual, pelo papel, já abocanhou 2 Emmys, um como atriz e outro como produtora.

O enredo de HT, parte de uma problemática na qual as taxas de fertilidade despencam em virtude da poluição e de doenças transmissíveis. Tal questão acaba gerando caos, do qual surge o governo totalitário da República de Gilead, que outrora foi parte dos EUA.  Como todo governo sobre o planeta, Gilead se fundamenta em narrativas para mobilizar as suas práticas, leis e costumes. O problema é que as narrativas montadas pelos mandatários e idealizadores desta  sociedade são tão absurdamente acatadas e toleradas que nos tiram o fôlego. O pior é enxergar a convivência pacífica das desumanidades e o discurso religioso. Na verdade, é o texto bíblico que acaba sustentando as piores atitudes de Gilead. E, igualmente, intolerável observar que, seja na história da humanidade, seja no mundo contemporâneo, os preceitos religiosos possam ter tal plasticidade e abrigar toda sorte de barbaridade.

A sociedade Gileadiana é um regime absolutista, militarizado, hierárquico e fundamentalista. As esposas são submissas, não devem trabalhar, possuir propriedades, nem mesmo ler. Há poucas mulheres férteis neste mundo distópico. June é uma destas. Uma característica muito cobiçada e, ainda mais, em Gilead, que apela para o temível  recurso de raptar e escravizar as mulheres fecundas, as chamadas "aias" (Handmaid), as quais são encaminhadas para as casas da elite mandatária, onde são submetidas a estupros ritualizados.  

No "conto da aia", acompanhamos a penosa trajetória de June desde "o mundo comum", no qual ela vive com o marido e a filha pequena, até os momentos mais dolorosos. Desde o seu sequestro, June está sujeita às regras mais absurdas e uma vigilância contínua. Bastaria uma palavra de protesto ou uma ação imprópria para lhe levar à tortura e até mesmo à morte.  É pelos olhos de Offred que vemos esta sociedade deformada.

Há sequências em Handmaid’s que merecem uma tese de doutorado, mas trago aqui uma pequena cena da 1a temporada que, talvez,  muitos nem sequer notaram. Há um diálogo entre June e o Comandante Waterford no qual ele diz para a sua aia que o "melhor nunca é o melhor para todos". Não houve nenhuma - nem há - organização social no planeta, na qual esta frase não caiba como uma luva. Esta é a longeva condição entre os seres humanos: há sempre o melhor para alguém e o pior para outros. É a velha história de dominação que define a existência de privilegiados e explorados, dominadores e dominados. E, para que essa pauta se mantenha, nada, absolutamente nada funciona tão bem quanto impor uma narrativa que a sedimente.

Handmaid’s tale chega à quarta temporada com fôlego para muito mais, porque é um libelo contra toda postulação que defenda abusos e manipulações, ainda mais quando o pano de fundo para tais comportamentos é a religião. É, também, uma ode à criatividade, a criticidade e à arte de se contar histórias. Há sempre tempo para se deliciar com uma história e Handmaid’s tale é prova disso.

Outrossim, é uma porta aberta para que possamos vislumbrar as nossas próprias mazelas e, quem sabe, um estímulo à reflexão, ao aprendizado e à evolução como seres humanos.

Afinal pouca coisa é tão persuasiva quanto uma boa história.