A era da abundância e os filtros inteligentes - Caique Pegurier | Inovação e Startups

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06 Dezembro, 2018


     Não faz muito tempo, nosso acesso a conteúdo era muito limitado. Durante a minha graduação e mestrado em engenharia, muito material didático usado pelos professores era xerox de partes de livros importados, aos quais não tínhamos acesso. Formavam-se filas sem fim na central de copias para pegar a cópia do capitulo ou trecho determinado pelo professor. Todos sabíamos que havia um limite claro do número de livros aos quais teríamos acesso durante nossas vidas, especialmente se só pudéssemos ler em português. Poucos livros eram traduzidos para nossa língua materna e livros importados eram raros e caros. Caso quisesse um clássico, provavelmente teria que achar alguém na família que possuísse uma copia antiga e pedir emprestado.

         O mesmo acontecia com cinema. Além do fato das produções estrangeiras chegarem aqui com um ano ou mais de atraso, se você não visse o filme quando estava em cartaz, sabia que só o veria daqui a um ou dois anos na televisão e necessariamente dublado. Filmes antigos, às vezes, passavam em sessões raras em alguns cinemas, ou em programas de televisão tarde na noite. Se você não aproveitasse uma destas raras oportunidades, não sabia quando seria a próxima.

    Tudo se repetia com a música. Ou você tinha o LP com a música desejada - e levava de carona várias que não queria, ou conhecia alguém que o possuía e pedia emprestado para gravar/copiar em uma fita cassete. Outra alternativa era gravar do rádio - enquanto torcia para que o âncora não falasse enquanto você gravava aquela música que tanto amava.

         Em resumo, todos sabíamos que conteúdo era valioso e de acesso limitado. Pelo lado negativo (ou positivo, depende do ponto de vista), tínhamos que lidar com uma frustração constante de saber que não teríamos tudo o que viéssemos a desejar. Não veríamos todos os filmes que queríamos, não leríamos todos os livros que nos interessavam, nem tampouco ouviríamos todas as músicas que sonhávamos.  O lado positivo era que tanto esta limitação, como a consciência de que nada poderia ser feito para alterar esta realidade, geravam uma certa tranquilidade, ou talvez ausência de ansiedade. Era esta a nossa realidade e ponto final.

         Em menos de uma década tudo isto mudou. Hoje temos acesso fácil a tudo. Sim, a tudo. Podemos ver todo e qualquer filme já produzido, ouvir todas as músicas já compostas e gravadas, ou ler todos os livros já escritos pela Humanidade em toda a sua existência.

    Por exemplo, se alguém quiser ter acesso aos famosos Manuscritos do Mar Morto[1] no original, é só fazer uma busca no seu browser e, com um click do mouse ou toque no seu touchpad... voilà! Lá estão eles na telinha do seu computador ou celular. Gosto de usar este exemplo por que parece extremo, mas se você duvida, pode tentar. Enquanto escrevia este parágrafo, parei e fiz esta busca. Um dos três primeiros resultados é uma reportagem de 26 de setembro de 2011 que informa que o Google acabara de liberar o acesso aos Manuscritos para consulta pública na internet. Até então, desde 1965, os Manuscritos (aqueles de posse do Museu de Israel em Jerusalém) eram mantidos em uma sala escura e climatizada, onde somente 4 funcionários especialmente treinados podiam entrar.

    Pare e leia de novo: de 1965 até 2011, só 4 técnicos altamente treinados podiam manusear estes documentos! A partir da iniciativa do Google em 2011, qualquer cidadão do Mundo, em qualquer lugar, de qualquer origem, qualquer credo, raça, nacionalidade, desde que possuísse acesso à internet, passou a ter acesso a eles e em resolução de 1.200 megapixels (200 vezes mais que a de uma câmera comum!). ah, e nas línguas originais: hebraico, aramaico e grego. Outro detalhe, o principal dos Manuscritos, atribuído a Isaías, já estava traduzido para o inglês e o plano era de traduzir os demais.

         Bem, o lado positivo é que jamais tivemos acesso a tanta informação e, de certa forma, nossas vidas ficaram mais fáceis - se você é um pesquisador dos Manuscritos do Mar Morto, não precisa mais viajar para Israel e esperar uma autorização especial para que um dos 4 mega-técnicos os mostre a você, basta buscar na internet. Por outro lado, este acesso quase infinito nos leva a um estado de ansiedade permanente. Como é que ainda não li aquele livro que meus amigos já leram? Porque ainda não assisti a todos os grandes sucessos de Alfred Hitchcock que meus pais recomendaram? E aquela série do Netflix que é mega sucesso global...estou super atrasado! Todos estão na ultima temporada e eu ainda na 2ª!!

         Simplesmente não há como ver, assistir, ler tudo! Em 2016[2], estimava-se que em um ano:

·         182 milhões de tweets seriam tweetados

·         30 bilhões de posts seriam publicados

·         8 milhões de músicas seriam produzidas

·         2 milhões de novos livros seriam publicados

·         16,000 filmes seriam produzidos para cinema

    Some a estes números assombrosos o que a Humanidade produziu até aqui e fica obvio que é impossível dar conta deste volume imenso de conteúdo. Esta é exatamente a razão pela qual a maior guerra tecnológica do momento é a das empresas da sigla GAFA (que resume as 4 grandes potências tecnológicas do nosso tempo Google, Apple, Facebook e Amazon) para ver quem será o nosso assistente inteligente: Apple com a Siri, Amazon com a Alexa, Google com seu Google Assistant e Facebook com seu Virtual Assistant M.

     Se nós individualmente enfrentamos este dilema de como escolher que conteúdo devemos consumir diante da vasta imensidão de conteúdo (à qual Kevin Kelly deu o nome de Library of Everything), é lógico imaginar que empresas e seus gestores também estejam com problema semelhante.

    Muitos de nós ainda não nos demos conta de que saímos da Era da Informática e já entramos na Era da Inteligência, mas já é senso comum que os negócios produzem hoje uma montanha de dados sobre seus clientes, seus produtos e serviços. A maioria de nós também já ouviu a máxima: "Data is gold" (Dado é ouro, em tradução livre). Eu prefiro dizer que dados são o minério de ouro e que a inteligência que geramos a partir deles é a joia já totalmente finalizada, isto é, é a forma de mais alto valor agregado.

    Ora, se concordamos com o que está posto no parágrafo anterior, então estamos todos certamente buscando formas de gerar inteligência a partir dos dados que geramos nos nossos negócios. Só que a realidade não é bem assim. Me impressiona o número de casos que sigo testemunhando, tanto de startups como de empresas estabelecidas que continuam sem gerar inteligência para seus negócios. Em alguns casos, as empresas abrem mão de seus dados, isto é, deixam que outros os usem indiscriminadamente. Em outros, gestores não protegem de forma adequada os dados gerados pelo seu negócio nos contratos que assinam. Qualquer que seja o caso, a dificuldade principal está em saber como priorizar os dados, entendendo como filtrá-los para então poder analisá-los e gerar valor aos seus clientes e, por conseguinte, ao seu negócio (nesta ordem!).

    Logo, a pergunta que deixo para o leitor e leitora é: o que você está fazendo para ajudar seus clientes a filtrar dados para gerar inteligência para seu negócio?



[1] Em 68 a.C. os textos foram escondidos em 11 cavernas às margens do Mar Morto para serem protegidos durante a invasão do exército romano. Em 1947 um pastor beduíno encontrou por acaso as cavernas e os Manuscritos.

Desde 1965, os Manuscritos são mantidos no escuro, em salas climatizadas do Museu de Israel, em Jerusalém, onde somente quatro funcionários especialmente treinados têm autorização para manusear os pergaminhos e papiros. O museu possui oito dos manuscritos, que estão divididos em 30 mil fragmentos, mas ainda existem outros em poder da Autoridade de Antiguidades de Israel e colecionadores particulares.

 

[2] Números citados no capítulo 7: Filtering, do livro "The Inevitable" de Kevin Kelly, leitura obrigatória para todos que querem entender melhor a transformação pela qual passamos hoje e as forças que darão forma ao nosso futuro.