Minha Carreira | O caminho do meio - parte VII - Marcelo Veras

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07 Outubro, 2019

"E os extremos na liderança? Funcionam? Não!" 

 

Quando o Brasil se abriu ao mercado, no início da década de 1990, muitas empresas brasileiras, que viviam tranquilas em seus monopólios ou oligopólios, entraram se apavoraram. Depois de 1994, com a chegada do Plano Real, o bicho pegou. O país foi, literalmente, invadido por empresas, marcas e produtos internacionais que, famintos, desejavam abocanhar um pedaço do nosso imenso mercado consumidor. Muitas empresas brasileiras sucumbiram. Outras, não só sobreviveram como cresceram e se internacionalizaram. Mas o clima era tenso e o recado muito claro - salve-se quem puder!

Nesta época, eu estava começando a minha carreira executiva e, na primeira empresa grande na qual me inseri, já fui escalado para um treinamento chamado "Grid Gerencial". Era um treinamento outdoor e com características de competição. Muita tensão, ao longo de uma semana, onde, em alguns momentos, nos sentíamos como um soldado do filme "Tropa de elite". - Pede pra sair! Quase isso...

Ao final, cada um de nós ganhava um "carimbo na testa" com o nosso perfil gerencial. O primeiro número (1, 6 ou 9) era a nossa "orientação para resultados". O segundo número (também 1, 6 ou 9) era a nossa "orientação para pessoas". Ou seja, um perfil 9x1 era o líder rolo-compressor. Aquele que entregava resultado mas que deixava um rastro de sangue no time. Já o perfil 1x9 era o paizão. O líder que não entregava resultado algum mas cuidava da equipe como se fosse um pai. Obviamente, neste treinamento não ficávamos sabendo qual tinha sido o nosso resultado. Mas ao longo do mesmo, com as dinâmicas e as atividades que nos levavam ao extremo, todos acabavam se delatando. Por fim, todos tínhamos o conhecimento de quem era 9x1, 1x9, 6x6, etc. O mais interessante era que os 9x1, ao voltarem para suas unidades da empresa, logo eram promovidos.

Quando me perguntam o porquê, sempre digo que o perfil de liderança depende da situação e do momento histórico. Naquela época, o ponteiro estava no vermelho e a maioria das empresas queriam e estavam em busca de lideranças fortes. A preocupação com as pessoas era secundária, embora a maioria não assumisse.

Poucos anos depois, depois que a poeira baixou, começou a surgir um novo perfil de liderança. As empresas entenderam que aquilo não era sustentável. O falecido comandante Rolim, da TAM, foi um dos pioneiros e criou uma legião de seguidores do estilo "liderança orientada para as pessoas". Empresas mais humanizadas e gestores mais próximos. Obviamente a moda pegou e vários passaram da conta.

Depois de idas e vindas, o que fica? Adivinha! O caminho do meio. Hoje, pode circular entre as maiores e mais relevantes empresas da atualidade e você verá que "nem tanto ao céu, nem tanto à terra". Pressão demais não funciona. As pessoas não aguentam e os melhores vão embora. Pressão de menos, também não funciona. A empresa vira um parque de diversões, os resultados não acontecem e o navio afunda.

De novo, é a história real mostrando que "os extremos são, por definição, burros". O que funciona, como sempre, é o caminho do meio. Liberdade, proximidade, pressão e cobrança, tudo na dose certa. Até o próximo!