Gestão de Carreira e Competências| Estrela que não faz falta - Marcelo Veras

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15 Julho, 2019

"Neymar é extraordinário, mas o trabalho em equipe é importante" (Tite)


Há muito tempo não sou mais fã de futebol. Não gosto do rumo que o esporte tomou e a minha empolgação com a seleção brasileira é do tamanho de um amendoim. Não entendo muito as estratégias atuais e me contenho ao comentar qualquer ação que deu certo ou errado no futebol. Mas de equipe de alto desempenho eu entendo um pouquinho. Logo depois do 1º jogo do Brasil na Copa do Mundo da Rússia eu escrevi um artigo dizendo que aquele time não chegava nem nas semifinais. Não via naquele grupo uma energia boa, um brilho nos olhos e, principalmente, um espírito de equipe. Um fato, que escrevi na época, me chamou a atenção. Ao chegar para um dos primeiros jogos, o ônibus da seleção chegou ao estádio e abriu a porta. Um a um, jogadores e comissão técnica foram descendo, acenando para os jornalistas e seguindo para o vestiário. Já conhecendo a peça, pensei: "Adivinha que será o último a descer do ônibus? isso mesmo: Neymar". Pois bem, depois que o último jogador desceu, disparei o cronômetro. 40 segundos depois desce a "estrela". Comentei com a minha esposa no dia: "Precisa disso? Para que tanto estrelismo? Tenho certeza de que os demais jogadores não gostam de conviver com essa postura e isso, lá dentro do time, tem impacto negativo". Bom, deu no que deu.

Agora, na Copa América, após se machucar e em meio ao escândalo do suposto estupro, a "estrela" saiu da competição. No dia em que fiquei sabendo, comentei de novo com a minha esposa: "Agora eu aposto que esse time vai ser campeão". Deu no que deu. Time ainda com sérias limitações, mas com uma garra diferente e uma energia diferente. Sabe o que é interessante? Tanto ao longo da competição como após o título, ninguém, ninguém, cita o Neymar nas suas entrevistas, lamentando a sua ausência ou dedicando a conquista a ele também. Estranho, não?

No Vôlei, quando Giba e Murilo foram cortados por lesão antes de mundiais ou olimpíadas que o Brasil venceu, os atletas chegaram a levar a camisa deles para o pódio, dedicando o título ao parceiro que devia estar em casa chorando de emoção e lamentação por não estar ali. Isso acontece por uma razão muito simples. Quando um membro de uma equipe trabalha prioritariamente para o time, ele ajuda a criar o ambiente de colaboração e garra, colocando o resultado do time acima do seu. Equipes de alto desempenho têm pessoas competentes sim, mas acima de tudo, comprometidas com a equipe. O líder que consegue garantir isso tem maiores chances de sucesso. No caso do Tite, por convicção ou outro motivo, ele mantém essa "estrela" no time. Mas o interessante é que, ao seu estilo político e didático, ao comentar a ausência do Neymar no time, disse: "Neymar é extraordinário, mas o trabalho em equipe é importante". Não sei para você, mas para mim o significado é claro. Acho, no fundo, que ele deu Graças a Deus quando não pôde contar com o "cai-cai".

O fato é que Neymar não fez falta alguma, assim como Romário não fez falta na Copa de 2002 (cortado, corajosamente, pelo Felipão) e as equipes de alto desempenho não precisam de estrelas que não se coloquem a serviço da equipe. O Brasil foi campeão mundial em 2002 sem Romário (outra estrela que não queria treinar, chegava atrasado nas concentrações, etc), foi campeão da Copa América sem Neymar e será campeão sempre que tiver a coragem de tirar esse tipo de estrela do time.

Para a nossa carreira, fica mais uma lição simples, muito simples, mas que exigem coragem dos líderes - não adiantar ter uma ou mais estrelas em uma equipe se estas não ajudam a construir um clima de colaboração, participação e comprometimento. Se você tem uma equipe, não pense duas vezes antes de cortar uma "estrela" em benefício de um time mais coeso e com mais desempenho. Até o próximo!